quarta-feira, 24 de março de 2010

PEDALAR EM SÃO PAULO AINDA É UM SONHO

Por Flávia Pace

O trânsito sufocante, o ar poluído, as pessoas estressadas e a falta de verde na cidade de São Paulo parece ter se tornado coisa do cotidiano de cada paulistano. Alternativas que poderiam melhorar essa situação e trazer bem estar não estão sendo feitas, o que dificulta ainda mais a vida na cidade.

Uma ótima saída para o trânsito de São Paulo é a bicicleta. Seus benefícios são tanto para quem pedala, como para a população, e ainda mais para natureza que agradece.

Pedalar não é um hábito comum do paulistano, mas poderia ser já que, faz bem para saúde a prática de exercício, o trânsito é aliviado e não são emitidos gases nocivos para população e meio ambiente.

Mas como ir trabalhar ou ir à escola de bicicleta se a estrutura da cidade é precária? É aí que está o grande problema. São Paulo conta hoje com inacreditáveis 37,5 Km de ciclovias para atender os paulistanos. O ciclo ativista Arturo Alcorta ressalta a ineficiência do sistema ciclo viário de São Paulo: “Com relação à estrutura não temos praticamente nada que seja eficiente para a melhoria de condição de segurança e conforto do cidadão que se transporta em bicicleta”.

Para a ciclista Karen Amorim, 26, o difícil mesmo é conseguir um espaço no trânsito louco e caótico da cidade. Ela diz que leva cerca de 15 minutos, para chegar ao trabalho pedalando e que de carro demora em média 40 minutos para fazer o mesmo percurso. “Os carros não dão espaço para a gente, parece que estamos incomodando e, às vezes, até me xingam na rua.” Segundo Arturo também deve ocorrer uma espécie de educação no trânsito. “Há uma falta de planejamento para a educação sobre a bicicleta, sobre o pedalar, sobre o pedalar no trânsito, sobre o relacionamento do ciclista com os outros participantes do trânsito e vice-versa”. Ou seja, é necessário um respeito mútuo de ambas as partes e a melhoria de educação já é um começo.

De acordo com a Escola de Bicicleta, instituição que luta a favor da bicicleta no trânsito, o pouco que há é lazer. Mesmo o que foi inaugurado até agora, como os bicicletários e os pouquíssimos quilômetros de ciclovias que não são para lazer, ainda não chega a ser um início por que não forma um sistema ciclo viário. São coisas espalhadas, sem um todo, sem conexão, que vão de nada para lugar nenhum.

Se comparada com algumas outras grandes cidades do mundo, São Paulo deixa muito a desejar. Berlim conta hoje com 625 Km de ciclovias, Paris com 379 Km, Amsterdã com 400 Km e Bogotá com 300 Km de ruas especiais.

Uma metrópole como São Paulo viciada em carros, com uma frota de 6 milhões de automóveis, parece que não consegue escapar desse vício.

O Urbanista Jefferson Gonçalves ressalta que para São Paulo se adequar a uma estrutura eficiente de ciclovias seria necessárias severas mudanças na cidade. “Não é simplesmente sair construindo ciclovias. Deve-se ter todo um planejamento estrutural, não só para novas faixas para bicicletas, mas também para adaptar as ruas e avenidas da cidade ás ciclofaixas”.

O que pode-se ver é que pouco se fala sobre o assunto. A última inauguração de uma ciclovia em São Paulo foi em fevereiro desse ano. O trecho tem 14 km de extensão e liga as estações Jurubatuba e Vila Olímpia da CPTM. Seria uma boa notícia se não fosse um pequeno problema não visto antes pelos projetistas: a via tem apenas dois acessos para entrada ou saída. Ou seja, o ciclista que pegar a ciclovia não poderá entrar nem sair no meio do percurso. Para Jefferson este é um erro banal e comum de se cometer. Não adianta construir às pressas para entregar logo e mostrar a obra pronta. De que adianta entregar uma via sem iluminação e sem saídas ao longo do percurso? Acaba sendo um trabalho ineficiente e a ciclovia não fica funcional.

O que poucos sabem é que São Paulo tem 367 km de ciclovias no papel. Este é um número de obras previstas nas PREs, Planos Regionais Estratégicos. Esses planos foram criados em 2002, e tinham como objetivo a construção parcial das vias até 2006 e finalização total até 2012. Mas quanto foi construído até agora? Zero.

Assim, fica facilmente perceptível a falta de eficácia da cidade em construir alternativas que melhorem a condição de vida do cidadão paulistano. O que se vê são obras e mais obras para carros, entupindo de automóveis uma cidade que já não tem mais para onde crescer e que já está saturada com a falta de planejamento. E é no meio dessa selva de concreto que se tem que buscar saídas, pois já não se agüenta mais tanta poluição, tanto estresse e tanto trânsito.

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